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sexta-feira, 29 de março de 2013

As Igrejas contra o Estado Laico

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No jornal acima, de julho de 1933, podemos ver que as batalhas das igrejas contra o Estado Laico não são novas.

Na realidade há uma luta constante e sistemática, desde o fim do Império e a instalação da República em 1889.

Veja como Breiner da Costa Valcanti relembra um daqueles que resistiram aos ataques das igrejas ao Estado Laico, o jornal A Lanterna:
Nas páginas de A Lanterna a maior ênfase é dada ao combate à religião, apesar do jornal possuir textos relacionados a outros assuntos, como religião e movimento operário, seus artigos são em maior número dentro de uma postura anticlerical. Através de um discurso mais radical os anarquistas denunciavam nas páginas de A Lanterna a correlação existente entre os clérigos e os capitalistas, pois os primeiros seduziam os operários com seus discursos religiosos tornando-os passivos.
Em edição de 1913 já é possível perceber que A Lanterna já intervêm contra o clericalismo:
Luta contra os padres, para mostrar as contradições da sua vida com a sua doutrina [...] Discussão filosofica e historica dos dogmas e mitos, isto é, o anti-religiosismo, luta contra a base teorica da Igreja [...] Luta contra a influencia politica da Igreja – pela acção directa, pela propaganda extraparlamentar [...] Propaganda para mostrar o poder economico da Igreja, a Igreja como empresa, como auxiliar da exploração capitalista, como divisora do proletariado [...] (A Lanterna, 1913, Ano 13, n. 181: p.1).

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A Estupidez da Educação Estatal (2ª Parte)

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Hoje em dia discutimos, horas e horas, sobre cotas, em universidades federais e estaduais, para negros e para estudantes da rede pública. Ou seja, no fim das contas, para aquelas categorias que durante toda a história do país foram prejudicadas pelas questões que todos bem conhecemos: Escravidão, Capitalismo Selvagem, Corrupção, Racismo, Pobreza, etc.

O anarquista Mikhail Bakunin, há uns 130 anos atrás, já perseguia esta questão, com seus posicionamentos em prol das classes trabalhadoras.
"A primeira questão que temos de considerar hoje é esta: Poderá ser completa a emancipação das massas operárias enquanto recebam uma instrução inferior a dos burgueses ou enquanto haja, em geral, uma classe qualquer, numerosa ou não, mas que por nascimento tenha os privilégios de uma educação superior e mais completa? Propor esta questão não é começar a resolvê-la ?

Não é evidente que entre dois homens dotados de uma inteligência natural mais ou me­nos igual, o que for mais instruído, cujo conhecimento tenha se ampliado pela ciência e que compreendendo melhor o encadeamento dos fatos naturais e sociais, compreenderá com mais facilidade e mais amplamente o caráter do meio em que se encontra, que se sentirá mais livre, que será mais hábil e forte que o outro ?

Quem souber mais dominará naturalmente a quem menos sabe e não existindo em princípio entre duas classes sociais mais que esta só diferença de instrução e de educação, essa diferença produzirá em pouco tempo todas as demais e o mundo voltará a encontrar-se em sua situação atual, isto é, dividido em uma massa de escravos e um peque­no número de dominadores, os primeiros trabalhando, como hoje em dia, para os segundos".
Mas não nos enganemos. Bakunin não esperava que o Estado fosse mudar as coisas, como os órfãos e viúvas de Marx sempre acreditaram. Ele não seria idiota a esse ponto. O que ele, e meio mundo de anarquistas, esperava era que o povo (os trabalhadores, em particular) tomasse essa responsabilidade em suas mãos. Organizando-se em sindicatos, cooperativas ou associações, e lutando e buscando uma vida melhor através delas.

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Quer ler a Primeira Parte desse tema ? Siga o link abaixo:

http://osinimigosdorei3.blogspot.com.br/2012/12/a-estupidez-da-educacao-estatal-1-parte.html

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A Estupidez da Educação Estatal (1ª Parte)

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Carlos Baqueiro (cbaqueiro@terra.com.br)

Durante séculos a educação ficou reservada aos nobres e religiosos, e posteriormente, à burguesia que, na medida de sua ascensão, exigia os mesmos privilégios que detinham os aristocratas. 

Como os privilégios não chegavam a todos, a maior parte da sociedade não tinha nenhuma vantagem em todo o desenvolvimento construído pela educação. Na realidade, todo, ou quase todo, desenvolvimento na educação foi em detrimento da maioria dos indivíduos. 

Ainda no século XIX uma educação superior era defendida pelas classes nobres (inclusive burgueses) somente para elas. Muitos não se resignaram a aquele estado de coisas. Eram reprimidos. Presos, torturados ou mortos. Movimentos populares, sindicatos, entre outros, se mobilizaram e chegaram até a criar suas próprias escolas. 

E não só escolas, mas teatros e universidades, e toda uma gama de locais e organismos que tentavam criar uma nova cultura, transformando a existente em algo mais descentralizado e democrático. A burguesia de uma forma mais inteligente que a aristocracia sabia que aquele foi o mesmo caminho que ela tomou para ascender politicamente. Formar sua própria cultura. Portanto seria imprescindível criar instrumentos que dificultassem e anulassem aquela ascensão das classes populares e trabalhadoras. 

Com este intuito desde a Revolução Francesa aparecem as escolas públicas. Os ingleses abriram suas escolas já no século XVIII. Napoleão vai dar um acabamento final a aquelas instituições. Os pobres ignorantes seriam "educados" para tornarem-se bons cidadãos e trabalhadores disciplinados. O ensino público, gratuito e obrigatório, patrocinado por Estados Burgueses ou Socialistas, foi visto, equivocadamente, por boa parte das populações, como a melhor maneira de garantir a democratização do conhecimento. 

Poucas foram as vozes discordantes. William Godwin, filósofo inglês foi uma delas, já em 1793:
"... todo projeto nacional de ensino deveria ser combatido em qualquer circunstância pelas óbvias ligações com o governo, uma ligação mais temível do que a velha e muito contestada aliança da Igreja com o Estado. Antes de colocar uma máquina tão poderosa nas mãos de um agente tão ambíguo, cumpre examinar bem o que estamos fazendo. Certamente que o governo não deixará de usa-la para reforçar seu próprio poder e para perpetuar suas instituições". 
É claro que houve mais gente que acreditou em mudanças. Ivan Illich , acreditando em um mundo sem escolas; Paulo Freire , desejando uma escola que não fosse legitimadora do poder constituído; A.S.Neill , construindo a Escola de Summerhill na Inglaterra, acreditando que melhor seria educar um futuro gari feliz, do que um primeiro ministro neurótico. 

Mas a maioria dos educadores, inclusive mestres e doutores (formados pelo próprio Estado, é claro), parecem se prender a amarras, a correntes, como escravos que não desejam fugir do engenho.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

BLOG A

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Para quem gosta de criar afinidades libertárias e tem Facebook existe agora uma página chamada BLOG A, com notícias e informações do mundo todo sob a ótica anarquista.

https://www.facebook.com/umbloga

Dá uma chegada lá e comenta alguma coisa.

sábado, 2 de junho de 2012

Sociedade de Controle: Aqui e Agora

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O século XX se encerrou afirmando como utopia uma necessária democracia agenciada pelas forças liberais. Ela deve servir a todos como forma de vida política igualitária capaz de contemplar as diferenças. Trata-se de uma democracia representativa com base em direitos civis, políticos e sociais que espera a participação de todos e se propõe garantidora de direitos a serem contemplados com base na inspiração multiculturalista. Capitalismo com democracia passou a ser o duplo indissociável que encerrou o século anunciando o retilíneo caminho a ser seguido pela sociedade de controle.
Edson Passetti no livro Anarquismos e Sociedade de Controle (Cortez Editora)

sábado, 5 de maio de 2012

Este Ano Tem Eleição... Tem Sim, Senhor.

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El Brujo -  14 de Abril de 2008 - Mídia Rebelde

Salvador terra dos esquecidos do PAC... estamos em abril (mês da mentira) e a situação eleitoral já começa se definir nos partidos maiores: o ‘demô_nio’ já envio o seu representante oficial [o neto do seu mais fiel escudeiro e coadjuvante nas malvadezas contra o povo pobre e periférico]. Enviou, é claro, outros candidatos também para fazer a “misansene” de praxe e tornar o cenário um pouco mais realista para convencimento da grande platéia do espetáculo circense da afirmação da democracia representativa.

É o ponto que devemos atentar, pois vão falar muito desse tema: o que é essa tal de democracia [do povo para o povo] representaviva [sem o povo, pois muita gente mandando atrabalha] de que tanto falam e esqueceram de informar a raia miúda dos daqui de baixo e localizados estrategicamente na periféria das coisas boas da cidade: lazer, educação, saúde, segurança pública, etc...

Governo do povo, que não é exercido pelo povo... E no nosso lugar entra a figura do representante, que representa os seus interesses pessoais e familiares, e da ‘curiola’ que gravita em torno de valores que nunca é explicitada a sua origem, bem como sua a finalidade. Mas com dinheiro em jogo... nem o diabo fica quieto e já começou a brincadeira/confusão com o valor que o cabeça branca deixo para seu povo de casa e que será o ‘cacife’ dessa eleição.

O último exemplo público: no oficial tem-se trezentão [milhões] para ser rateado entre os ‘vivos’. E o povo sem instrumentos concretos para dizer o que quer para si e para os seus... tomando as rédeas desta besta fera [gestão da coisa pública] que só corre em direção as baias dos poderosos, velhos de sempre, na vivência neste picadeiro.

Lá da periféria da cidade o povo é convocado, por força de uma lei do tempo do jeca tatu e de suas gordas lumbrigas – que nos rouba as potências de dizer um basta à tanta desfasatez – para escolher o que não se conhece, não se sabe em menor profundidade da engrenagem da máquina pública.

O convite do tribunal é para escolher figurinhas caribadas, que aparecem numa tela impasível e impessoal, e que nada informa das relações de poder contruídos entre representantes e [os nada] representados...

Relação de dominação, isto sim, que é próprio do mundo das representações políticas. Representações estas em que só alguns caras-de-pau governam em nome de muitos miseráveis sub_nutridos, sub_informados, e além disto tudo perseguidos pelos ‘homé’ da boina preta... perseguição agendada em nome da garantia da felicidade dos faustos consumidores e pagadores de impostos.

Tantas são as questões em jogo, que é sem sentido a escolha entre o bem e o mal... temos de ir além, em busca de novas relações.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O Anarquismo e a Moral

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Errico Malatesta  (1853 – 1932)

Há quem ache que os anarquistas negam a moral, porque, sob o ponto-de-vista teórico, não admitem uma moral absoluta, eterna, imutável, e que, na prática, se insurgem contra a moral burguesa, que sanciona a exploração das massas e condena os atos que põem em perigo e prejudicam os privilegiados.

Esquecem-se os que assim pensam de que a moral corrente, além das regras inculcadas pelos sacerdotes e pelos amos, no interesse do seu domínio, existem também, e são na realidade as mais numerosas e substanciais, as regras que são o resultado e a condição de qualquer convivência social: esquecem-se de que a revolta contra toda e qualquer regra imposta pela força não significa de maneira alguma a renúncia a todo e qualquer freio moral e a todo e qualquer sentimento de obrigação para com os outros. Para combater racionalmente uma moral é indispensável opor-lhe, em teoria e na prática, uma moral superior. Dentro da moral burguesa, se nisso forem um pouco ajudados pelo temperamento e pelas circunstâncias, os homens acabam por se tornar imorais na acepção absoluta da palavra; isto é, sem regra de conduta, sem critério para guiar as suas ações, cedendo passivamente aos impulsos do momento. Hoje tiram o pão da boca para socorrer um companheiro, e amanhã matarão um homem para poder ir a um bordel!

A moral é a regra de conduta que cada indivíduo tem por hora. Pode achar-se má a moral dominante numa época, num país determinado, em certa sociedade, e, com efeito, nós achamos péssima a moral burguesa; mas não se pode conceber uma sociedade sem uma moral, seja ela qual for, nem um homem consciente que não tenha critérios algum para julgar o que é bom e o que é mau para si e para os demais. Quando combatemos a sociedade presente, a moral egoísta dos burgueses, a moral da luta e da competência, opomos a moral do amor e da solidariedade, e tratamos de estabelecer instituições que correspondam a esta nossa concepção das relações entre os homens. De outra maneira, como poderíamos achar mau que os burgueses explorem o povo.

Outra afirmação daninha, que em muito é sincera, mas que em outros é uma desculpa, consiste em que o atual ambiente social não permite sermos morais; e que, por conseguinte, é inútil fazer esforços, por meio dos quais nada se poderá alcançar; o melhor será cada um tirar o proveito que possa, dadas as presentes circunstâncias, sem, se importar com os outros, mudando depois de vida quando mudar a organização social. Certamente, todo anarquista compreende a fatalidade econômica que hoje constrange o homem a lutar contra o homem, e todo bom observador vê a impotência da revolta individual contra a força prepotente do meio social. Mas é igualmente certo que, sem a revolta do indivíduo que se associa aos outros indivíduos revoltados para resistir ao ambiente e tratar de o transformar, esse ambiente jamais se modificaria.

Todos nós, sem excepção, nos vemos forçados a viver mais ou menos em contradição com os nossos ideais; mas somos anarquistas, pelo que sofremos com essa contradição e pelo que nos esforçamos por diminuí-la o mais possível. No dia em que nos adaptássemos ao meio, naturalmente nos fugiria o desejo de o transformar, e nos converteríamos em simples burgueses, sem dinheiro talvez, mas nem por isso menos burgueses nas ações e nas intenções.

Texto publicado no jornal O Inimigo do Rei, número 20, Julho/Agosto de 1987.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Greve, não: ANARCHIA

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Carlos Baqueiro

Apareceu hoje um comentário no post publicado no Domingo passado (O Povo Soberano) questionando a existência de anarquistas na Bahia já na década de 20 do Século passado. Na realidade pelo que pesquisei não dá prá afirmar que fossem anarquistas. Agripino Nazareth, por exemplo, que editou o jornal Germinal, tem ações também em São Paulo, junto justamente com os anarco-sindicalistas (felizmente, ainda não inventaram anarcometro). Mas uma coisa é certa. As ideias anarquistas estavam por aqui pela Bahia durante esses anos. Pois em outras fontes se "escuta" falar sobre questões como a negação dos partidos, a crítica à autoridade da Igreja, questões feministas e sexistas, que sempre permearam os ideias acratas em todos os lugares e tempos.

Transcrevo a seguir parte de artigo que criei durante curso de história, abordando justamente a Greve Geral de 1919, em Salvador. Espero que a leitura do texto seja agradável e útil a todos.

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A greve geral tem seu início no dia 3 de junho, iniciando-se com uma parada dos trabalhadores da obra de construção da Biblioteca Pública. Dali saindo em passeata conseguiram a adesão de outros trabalhadores levando o DN a apoiar o movimento: "E que seja o seu movimento coroado de êxito, é o que ardentemente desejamos, nós que sempre estivemos do lado do operariado digno". Centralizando suas ações e planos no Sindicato dos Pedreiros e Carpinteiros, os grevistas, pedreiros, carpinteiros, padeiros, empregados da linha Circular de bondes e operários das fábricas de tecidos, montaram comissões para se entender com empresários e governo.

No dia 4, com a greve mais organizada e forte resolveram criar, sob a liderança de Agripino Nazareth, o "Comitê Central de Greve" sob o mesmo formato daqueles criados nas greves de São Paulo em 1917. Sob a bandeira das 8 horas de jornada de trabalho o "Comitê", segundo o jornal baiano Diário de Notícias, seria encarregado da direção da greve, formado pelo representante dos padeiros, Constâncio Pereira Victório, dos pintores, Odilon Neves da Costa, dos operários da fábrica da Boa Viagem (Empório Industrial do Norte, fundada por Luis Tarquínio no final do século passado), Eleutério Bispo Ferreira, do Sindicato dos Pedreiros, Guilherme Francisco Nery, Antonio Amaro Sant'Ana, Abílio José dos Santos, dentre outros.

É importante notar aqui, abrindo-se um parêntesis, após termos conhecimento, também, dos nomes dos participantes das Comissões de entendimento, e dos feridos do movimento de agosto de 1917, a quase, ou completa ausência de nomes que indiquem a existência de imigrantes estrangeiros. Isto desmistifica a idéia da "flor exótica", que segundo a imprensa das oligarquias e burguesia paulista e carioca, colocaria o imigrante como o corruptor do "bom e pacífico" proletariado brasileiro, levando-o a caminho da greve.

Mas o DN não levaria seu apoio aos grevistas até o final do movimento. A força que a greve parece ter tomado criou um certo mal estar para os políticos ligados ao DN e A TARDE.
A política, porém, a política adversa a situação, ainda curtindo as dores com o insucesso da candidatura Ruy Barbosa, que attribuia aos responsáveis pela governação da Bahia, tentou tirar partido dos acontecimentos, procurando indispor os operários e o commercio com o governo do Estado. (ARAGÃO, Antonio Ferrão Moniz de. A Bahia e seus Governadores na República. Imprensa Oficial. Bahia. 1923. pag 656).
O DN após dias sem ser publicado devido às dificuldades decorrentes da greve como falta de luz, telefone, bondes, etc., muda o discurso no dia 10 (veja imagem do jornal no início da postagem):

"Greve não, Anarchia ! ".

sábado, 17 de março de 2012

Estado e Anarquia

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Por Joaquim Gonçalves

O Estado tem sido em todos os tempos o pilar mais forte da propriedade privada. 

Expoente máximo do principio da autoridade, o Estado fundamenta sua razão de ser na defesa dos interesses das oligarquias dominantes e na necessidade de manter os interesses ilegítimos das classes usurpadoras. Por sua vez, a propriedade privada, sendo o mais poderoso sustentáculo do Estado legalista, é ao mesmo tempo a entidade em que este se apoia para a consecução dos seus fins, e, por conseguinte estes dois sistemas completam-se, não podendo um viver sem o auxilio do outro. 

Se amanhã, por virtude dum qualquer movimento revolucionário, o povo tivesse a audácia necessária de proclamar a abolição do Estado, deixando, no entanto subsistir o monstruoso princípio da propriedade privada, não tardaria muito que a sua reconstituição se fizesse, posto que só ele podia fazer valer esse principio, pelas suas leis coercitivas e pela força bruta das suas armas. 

Se, pelo contrario, o povo, fremente de revolta, suprimisse radicalmente a propriedade e consentisse que o Estado continuasse a predominar sobre a grande maioria dos indivíduos, aquela havia de fatalmente ressurgir, como principal elemento da vida desse monstro insaciável. 

Estas duas forças são os mais fortes alicerces da sociedade capitalista, e, a sua existência se encontra perfeitamente delineada nestas sinistras seis palavras: Oprimir e escravizar as massas laboriosas. 

Feita esta singela e despretensiosa exposição, chega-se a conclusão, lógica e inevitável, de que o primeiro passo a dar, após a Revolução Social, consiste em banir radicalmente estas duas fórmulas sociais e instituir, consequentemente, sobre a terra o Comunismo Anárquico, cujas generosas concepções se encontram impregnadas da mais elevada moral e possuem, a nortear a sua marcha, o brilho cintilante que caracteriza os grande ideais. 

A teoria marxista, que propaga a extinção da propriedade privada e admite um Estado proletário para coordenar à vida da coletividade, tem sofrido dos libertários os mais vivos ataques, e tem que ser inevitavelmente repelida por todos aqueles que, amantes da Liberdade, não aceitam outra lei que não seja a sua consciência, nem se vergam a qualquer poder ditatorial por mais proletário e avançado que este se apresente.

O Comunismo é absolutamente antagônico com a propriedade privada. A Anarquia é a completa antítese da autoridade. Esta transforma o indivíduo num verdadeiro autômato, asfixia nele todas as faculdades de iniciativa, e os seus discricionários poderes servem apenas para oprimir e tiranizar os escravizados de todo mundo. Aquela, pelo contrário, procura restituir ao indivíduo toda a sua autonomia, desenvolver lhe as faculdades de raciocínio e assimilação, e o seu próximo advento fará brilhar em toda a imensidade terrestre o rutilo clarão vermelho da Libertação Proletária. 

Entre estas duas força será travada uma luta homérica, sem precedentes, na qual a Anarquia sairá triunfante, fazendo baquear o Império das desigualdades sociais, para substituí-lo por uma causa nobre e justa, prenhe de amor e de justiça.

O Comunismo Libertário tem sido divulgado em todos os tempos por uma falange de puros idealistas, os quais, com o brilhar fulgurante das suas inteligências, o tem sabido impor a consideração de toda a humanidade, conseguindo dele fazer o querido evangelho das massas oprimidas. 

Por todo o Universo, perpassa neste momento a mais forte rajada libertadora que tem assolado o velho mundo, e como um violento furacão arrasta, na sua passagem devastadora, Repúblicas e Monarquias, barretes frígios e testas coroadas.

O velho edifício burguês encontra-se periclitante. Os seus alicerces fragmentam-se pouco a pouco, atingidos em pleno pelas vigorosas machadadas da nossa propaganda redentora. A sociedade capitalista agoniza ao sopro vivificador dos modernos ideais. De toda esta podridão imunda que se estadeia ignobilmente ante os nossos olhos, exalam-se emanações fétidas que corrompem e envenenam o ambiente.

É necessário purificar toda esta montureira abjeta pelo fogo sagrado dos nossos fachos reivindicadores. Que na hora inevitável e grandiosa da derrocada, cada um de nós saiba encarnar o espirito rutilante do Ideal Anarquista, e a emancipação do povo dar-se-á pela ação direta das massas espoliadas, livres da influência daninha e perniciosa dos modernos “comissários do povo”. 

Nesse momento a Humanidade será livre e feliz, porque, finalmente abatidos privilégios e preconceitos, na Terra será instituída uma nova moral, baseada no Bem, na Igualdade e na Liberdade, acabando por se esquecer na imensidade dos tempos a exploração odiosa e humilhante do homem sobre o homem.

Texto transcrito do Jornal O Libertário, Nº02, São Paulo, Janeiro de 1922

sábado, 10 de março de 2012

Por uma educação transformadora

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Carlos Baqueiro
cbaqueiro@terra.com.br

Aproveitando que o último post deste blog correu para a área de educação e que fiquei com um pé atrás com relação a ele, re-publico um material que escrevi há uns 8 anos atrás, quando terminava o Curso de Licenciatura em História, e tive a oportunidade de estagiar e ensinar numa escola pública de Salvador.

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Há milhões de anos o ser humano se preocupa em transferir experiência e conhecimento aos seus descendentes. Afinal de contas o somos seres de cultura. E essa cultura só existe historicamente porque as pessoas conseguem, através de sua linguagem, mantê-la e transforma-la, dialeticamente, no decorrer de sua vida no planeta.

Nas sociedades ditas primitivas a função de transferência de saber era de todos os indivíduos. A transferência se dava no dia a dia das pessoas, sem que houvesse alguém ou algum lugar que limitasse essa transferência.

Alguns dos seres humanos conseguiram sistematizar essa forma de transferência. Deram consistência e direção a ela e possibilitaram a existência do que podemos hoje chamar de Educação.

Sacerdotes, reis, filósofos, conseguiram através de seu esforço intelectual construir uma arte/ciência de transmissão de saber, e, a partir deste saber, conseguiram deter e manter também o poder político dentro da sociedade em que estavam inseridos. E do poder político ao poder econômico.

Mas somente na Idade Média, na Europa, a educação se torna um produto da Escola. A atividade de ensinar passou a desenvolver-se em espaços específicos, cuidadosamente isolados do mundo dos adultos e quase sem qualquer relação com a vida cotidiana.

Durante séculos este tipo de educação ficou reservado aos nobres e religiosos, e posteriormente, à burguesia que, na medida de sua ascensão, exigia os mesmos privilégios que detinham os aristocratas.
Como os privilégios não chegavam a todos, a maior parte da sociedade não tinha qualquer vantagem em todo desenvolvimento levado pela educação. Na realidade todo, ou quase todo, desenvolvimento na Educação, foi em detrimento da maioria dos indivíduos.

Muitos não se resignaram a aquele estado de coisas. O anarquista russo, Mikhail Bakunin, em meados do século XIX, atacava aquele formato de educação:
A primeira questão que temos de considerar hoje é esta: Poderá ser completa a emancipação das massas operárias enquanto recebam uma instrução inferior a dos burgueses ou enquanto haja, em geral, uma classe qualquer, numerosa ou não, mas que por nascimento tenha os privilégios de uma educação superior e mais completa? Propor esta questão não é começar a resolvê-la ? Quem souber mais dominará naturalmente a quem menos sabe e não existindo em princípio entre duas classes sociais mais que esta só diferença de instrução e de educação, essa diferença produzirá em pouco tempo todas as demais e o mundo voltará a encontrar-se em sua situação atual, isto é, dividido em uma massa de escravos e um peque¬no número de dominadores, os primeiros trabalhando, como hoje em dia, para os segundos.
Movimentos populares, sindicatos, entre outros, se mobilizaram e chegaram até a criar suas próprias escolas. E não só escolas, mas teatros e universidades, e toda uma gama de locais e organismos que tentavam criar uma nova cultura, transformando a existente em alguma coisa mais descentralizada e democrática.

A burguesia de uma forma mais inteligente que a aristocracia sabia que aquele foi o mesmo caminho que ela tomou para ascender politicamente. Formar sua própria cultura. Portanto seria imprescindível criar instrumentos que dificultassem e anulassem aquela ascensão das classes trabalhadoras.

Desde a Revolução Francesa a burguesia faz surgir as suas escolas públicas. Os ingleses abriram suas escolas também no século XVIII. Napoleão vai dar uma face final a aquela forma institucional. Naquelas instituições os pobres ignorantes seriam socializados, isto é, seriam “educados”, para tornarem-se bons cidadãos e trabalhadores disciplinados.

O ensino público, gratuito e obrigatório, patrocinado por Estados Burgueses, foi visto como a melhor maneira de garantir a democratização do conhecimento. O canto da sereia foi ouvido por aqueles mesmos que diziam defender os direitos do povo. E tanto em regimes ditatoriais, como na Alemanha nazista ou na União Soviética, quanto em regimes ditos democráticos, como nas “nossas” democracias ocidentais, as escolas começaram a trazer e fortalecer o germe do controle social.

William Godwin, filósofo inglês, já em 1793, temia por isto, mas poucos lhe deram ouvidos. Em seu livro, Investigação Acerca da Justiça Política, ele denunciava:
... todo projeto nacional de ensino deveria ser combatido em qualquer circunstância pelas óbvias ligações com o governo, uma ligação mais temível do que a velha e muito contestada aliança da Igreja com o Estado. Antes de colocar uma máquina tão poderosa nas mãos de um agente tão ambíguo, cumpre examinar bem o que estamos fazendo. Certamente que o governo não deixará de usa-la para reforçar seu próprio poder e para perpetuar suas instituições.
Porém, mesmo depois de 200 anos de estabelecido o controle estatal e autoritário, as vezes, quase imperceptível, dentro da sociedade, ainda é tempo de colocarmos um pé atrás quanto a uma educação monolítica, seja estatal ou privada.

O que devemos fazer, é nos por de pé e trabalhar por um formato educativo que permita a todos, alunos e educadores, transformarem as escolas onde vivem boa parte de suas vidas, em locais de alegria e felicidade, com todos em busca de uma vida melhor para toda a população.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O Sistema

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Ao contrário do que se afirma, os norte-americanos não são apáticos, mas constrangidos e moldados dentro das estruturas e das instituições e, por isso mesmo, estão convencidos, e não sem justificação, da impossibilidade de mudar, de modo significativo, o curso da sua própria existência.

A possibilidade de que dispunham nos últimos decênios, foi quase completamente usurpada pelas grandes sociedades multinacionais e pelos mastodônticos aparelhos burocráticos governativos, por uma tecnologia ao serviço do controle político, por uma economia e um Estado fortemente centralizados.

Até mesmo na esfera privada o cidadão norte-americano se sentiu dominado pelos grandes shoppings centers, pelas onipotentes máquinas das mídias de massa e por uma indústria energética monopolista que, em conjunto, decidem toda a sua vida (tipo de comida, moda, estilo de habitação, etc.).

Neste vasto complexo institucional - o "Sistema", como lhe chamamos - o cidadão tende a alijar os problemas que lhe dizem respeito diretamente e a refugiar-se na sua própria vida privada e familiar, nos seus amigos mais íntimos e nos prazeres cotidianos, isto é, no único mundo onde consegue ainda suplantar-se e compreender-se um pouco, se bem que apenas em parte.

Este refúgio, num mundo à sua própria dimensão humana, poderá ser interpretado como apatia, mas, na realidade, trata-se apenas de uma impotência social causada pelo "sistema" que, deliberadamente, impede as pessoas de se assumirem e assumirem o controle da sua própria existência e do seu destino social.

Murray Bookchin (1921-2006)
Textos Dispersos, Edição Socius
Lisboa, 1998

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Ser Anarquista


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É anarquista, por definição, aquele que não quer ser nem oprimido, nem opressor, aquele que quer o máximo de bem-estar, o máximo de liberdade, o maior desenvolvimento possível para todos os seres humanos.

Suas idéias e sua vontade têm sua origem no sentimento de simpatia, de amor e de respeito por todos os humanos: sentimento que deve ser bastante forte para levá-lo a desejar o bem dos outros tanto quanto o seu próprio, e a renunciar a toda vantagem pessoal cuja aquisição implicaria o sacrifício de outrem. Senão, por que não ser inimigo da opressão e não tentar tornar a si próprio um opressor ?

O anarquista sabe que o indivíduo não pode viver fora da sociedade e que ele só existe enquanto indivíduo porque traz consigo a soma total do trabalho de incontáveis gerações passadas e se beneficia, ao longo de sua vida, com a colaboração de seus contemporâneos.

Ele sabe que a atividade de cada um tem uma influência, direta ou indireta, na vida de todos e, por isso mesmo, reconhece a grande lei da solidariedade que prevalece na sociedade humana assim como na natureza.

Erico Malatesta (1853-1932)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Produção Anarquista em Salvador - C.R.Moska

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Carlos Baqueiro
cbaqueiro@terra.com.br

O vídeo a seguir é do "velho" anarco-soteropolitano CR Moska.


Moska publica suas artes, inclusive o Vídeo Poema acima, no blog:

domingo, 18 de dezembro de 2011

Pesquisa sobre o Socialismo Libertário

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Carlos Baqueiro
cbaqueiro@terra.com.br

Para quem está iniciando projeto de pesquisa, principalmente aqueles dos Cursos de História e Comunicação, sugerimos que iniciem trabalho sobre jornais baianos que têm alguma ligação com o movimento anarquista, seja lá pelos inícios do século XX ou mais novos, das décadas de 1970 e 1980.

Temos alguns dos antigos jornais digitalizados, como Germinal e A Voz do Trabalhador, e também temos já disponibilizados na Internet algumas edições do jornal O Inimigo do Rei e da Revista Barbárie, ambas dos anos de 1980.

Deixo aqui disponibilizada a capa da edição de 1º de Maio de 1921, do jornal A Voz do Trabalhador, Órgão de Imprensa do Sindicato dos Pedreiros e Carpinteiros de Salvador.


Estamos a disposição para ajudar na pesquisa com muita conversa e apoio moral. E o resultado da pesquisa será de fundamental importância para compreensão de um movimento político pouco estudado no  nosso Estado.

Aproveito esta postagem para desejar um ótimo 2012 para todo mundo.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A Conquista do Pão

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Carlos Baqueiro
cbaqueiro@terra.com.br

No final dos anos 1970, quando tive a oportunidade de conhecer o anarquismo, o primeiro livro que li foi  O Socialismo Libertário, de Mikhail Bakunin, encontrado na Biblioteca Central dos Barris, aqui de Salvador.

Logo depois, quando comecei a pesquisar um pouco mais sobre o movimento anarquista, com meus 20 anos, chegou às minhas mãos outro livro tão ou mais importante que o de Bakunin, era A Conquista do Pão, do "príncipe" anarquista Pietr Kropotkin. Uma edição produzida pela "Organização Simões", em 1953. Tenho um exemplar dessa edição aqui em casa, até hoje, retirada da divisão de livros quando do fim do saudoso Centro de Documentação e Pesquisa Anarquista (CDPA), em 1988.

É ali, naquele livro, que centenas, talvez milhares, de indivíduos angustiados com as desesperanças dos tempos modernos identificaram as palavras que procuravam. Logo no comecinho do seu texto, Kropotkin, estabelece o que para ele é de vital importância para o entendimento de nossa sociedade contemporânea, que teria condições materiais para atender a demanda de alimentos, por exemplo, de toda a humanidade, e mesmo assim podemos encontrar miseráveis a cada esquina, clamando por comida.
"Milhões de seres humanos trabalharam para criar esta civilização de que hoje nos glorificamos; outros milhões disseminados na superfície da terra trabalharam para a manter..... 
Mesmo o pensamento, mesmo a invenção são fatos coletivos nascidos do passado e do presente. Milhares de inventores mortos na miséria prepararam a invenção de cada uma dessas máquinas, em que o homem admira o seu gênio.....
Cada descoberta, cada progresso, cada aumento da riqueza da humanidade tem o seu princípio no conjunto do trabalho manual e cerebral do passado e do presente.....
Logo, com que direito poderia alguém apossar-se da menor parcela desse imenso patrimônio e dizer: 'isto é meu, e não vosso ?'"
Mas como ele mesmo vai delineando no livro, um grupo se apropriou da maior parte da riqueza que foi construída e mantida por todos, particularmente pelos trabalhadores. E é a partir dessas análises, incluídas avaliações das grandes economias da época, como a Inglaterra, que ele conclui já no capítulo nomeado de "O Bem Estar para Todos" :
"Mas para que o bem-estar seja uma realidade é necessário que esse imenso capital: cidades, casas, campos, oficinas, vias de comunicação, deixe de ser considerado propriedade privada de que o açambarcador dispõe a seu bel prazer. É preciso que tudo isso, obtido com tanto trabalho, se torne propriedade comum. É preciso uma EXPROPRIAÇÃO".
Todo o texto dele se torna relativamente atual, contanto que não nos furtemos de compreender todas as transformações tecnológicas e sociais ocorridas nos últimos 120 anos, desde quando Kropotkin escreveu aquelas palavras.

E é essa atualidade que serve de motivação para lermos as palavras daquele Revoltado Russo, que terminou sua vida numa casa de campo, exilado pelas lideranças do Golpe de Estado de Outubro de 1917.

A editora Achiamé tornou possível essa leitura, reeditando a edição de 1953, agora em 2011.

Quem quiser entender como Kropotkin imaginava uma Revolução nos finais do Sec. XIX, e deseje perceber como as coisas não mudaram tanto quanto possam aparentar, leia A Conquista do Pão.

O livro pode ser encontrado no site www.achiame.com, ou através do e-mail letralivre@gbl.com.br.


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Prá quem também se interessou pelo livro de Bakunin, ele já tá digitalizado:

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Inimigos do Rei: Antonio Mendes

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Carlos Baqueiro 
cbaqueiro@terra.com.br 

Antonio Fernandes Mendes fala sobre sua chegada a Salvador, até a formação do grupo que criou o jornal O Inimigo do Rei.

 

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O Inimigo do Rei, Nº 14

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Carlos Baqueiro

Para quem já leu, uma bela oportunidade de relembrar os bons tempos. Para quem ainda não leu, nem tocou as mãos, a possibilidade de gozar um pouco da ironia e do sarcasmo políticos dos Inimigos do Rei dos anos 80.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A Atualidade do Anarquismo

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Mario Rui Pinto (de Portugal, com exclusividade)

Nunca o anarquismo foi tão actual. Esta frase pode parecer inconsequente, escrita por quem acredita num conjunto de ideias minoritário, ou mesmo inexistente em muitas partes do globo terrestre. A sua força actual para influenciar movimentos sociais ou correntes de opinião é praticamente nula, mesmo em Estados onde, no passado, chegou a ter alguma capacidade de mobilização popular. E no entanto…

O capitalismo evoluiu de forma muito diferente dos escritos de Marx e a transformação do mundo tem sido muito mais complexa do que ele previa. Muito provavelmente, o capitalismo não há-de acabar devido aos efeitos de uma grande crise final motivada por contradições internas. Bem pelo contrário, o capitalismo tem aproveitado todas as suas pretensas crises para intensificar o seu grau de exploração sobre os indivíduos. E isto porque, ao contrário do que a classe dominante proclama hoje em dia, não há crises no capitalismo É o capitalismo que é a própria crise.

Não por acaso, também o “papel da classe operária” na transformação de toda a organização social acabou por ser muito diferente do que Marx previu, no fundo limitando-se a ajudar na construção de uma sociedade ainda mais opressiva e integrando-se plenamente no Estado e no sistema tecno-industrial.

A sociedade actual inflige inúmeros estragos ao ser humano, materializados em desigualdade, opressão, pobreza, injustiça, angústia, tensão nervosa, etc. e estragos ao meio natural, como, por exemplo, abate de florestas substituídas por construção, desaparecimento de espécies vegetais e animais, poluição do ar e da água. O progresso tecnológico provocou profundas alterações na sociedade e na biosfera. Esta modificação tem por consequência a desestabilização da vida no planeta que é cada vez mais nefasta. O que nos revela, pois, o presente?

Revela-nos, em primeiro lugar, que a sociedade actual não é justa, nem é pacífica a sua relação com a natureza. O Estado e o sistema tecno-industrial, essência e armadura da classe dominante da nossa época, gera a domesticação pelo capital dos seres humanos e a destruição da natureza, como resultado do espírito de lucro de alguns à custa do trabalho forçado de muitos; mantém e fomenta a opressão do dominado como consequência do uso do direito do dominante; torna o ser humano cada vez mais abstracto, deixa de ser um ser da natureza para se tornar um ser da tecno-indústria, logo do capital; conserva sem questionar uma fé cega no progressismo científico e técnico.

Revela-nos, em segundo lugar, que este sistema produz muitos estragos muito rapidamente. Engendra guerra com armas cada vez mais destrutivas; energia nuclear e o decorrente lixo atómico; poluição de diferentes tipos; aquecimento climático acelerado; desenvolvimento das cidades e urbanização do campo; envenenamento dos recursos naturais; aniquilamento da biodiversidade; substituição possível ou provável dos seres humanos por máquinas inteligentes; manipulações genéticas dos seres vivos; dominação das grandes organizações e impotência dos indivíduos; propaganda e as diversas técnicas de manipulação psicológica; problemas psíquicos da vida moderna, etc. Tudo isto tem por consequência um maior controlo e vigilância de todos os indivíduos, uma submissão ainda maior aos imperativos técnicos.

Finalmente, revela-nos, em terceiro lugar, que este sistema engendra um cada vez maior empobrecimento de cada vez mais indivíduos, em contraste directo com o enriquecimento desmesurado de apenas alguns; a perda de saberes elementares para uma vida autónoma; a destruição ou a apropriação capitalista dos elementos que a natureza oferecia ao ser humano gratuitamente.

Mas para quem é anarquista nada disto é novo. Há mais de cem anos que os anarquistas apontam e denunciam os perigos e males desta sociedade e para onde ela nos conduz. O consumismo, a ganância, o lucro, a irracionalidade produtiva estão a conduzir esta sociedade ao esgotamento de recursos naturais não reprodutivos, situação que poderá pôr em causa o futuro das próximas gerações. Para se reproduzir, o capitalismo precisa de desenvolvimento contínuo, acelerando este processo até à exaustão. Ora isto é incompatível com uma vida sustentável a longo prazo.

As soluções tradicionais de expressão política nas sociedades ditas democráticas – o voto, os partidos, os sindicatos – estão cada vez mais desacreditadas face não só à sua incapacidade para encontrar soluções, como mesmo à sua conivência com formas de exploração capitalista, corrupção e nepotismo. Neste momento, o Estado e o sistema político que o sustenta, são os principais garantes do capitalismo, sendo muito ténue a fronteira que os separa. Não foi por acaso que, no início da mais recente “crise”, todos os governos vieram em auxílio do sector financeiro – precisamente o sector apontado como seu principal responsável – negligenciando por completo falências de empresas que conduziram milhares de trabalhadores ao desemprego.

O que se passa hoje em dia em alguns estados europeus é que este cenário já foi compreendido, com um maior ou menor grau de consciencialização, por alguns estratos da população, sobretudo aqueles de onde a luta tem de partir: desempregados; marginais por escolha própria; minorias perseguidas pela moral dominante; jovens que tendem a recusar, mesmo que temporariamente, o tipo de vida que os espera; movimentos e associações de indivíduos que, de uma forma não-hierárquica, lutam contra os projectos tecno-industriais; indivíduos e grupos que praticam uma vida simples, denunciando o consumismo e o produtivismo e rejeitando a vida complexa e doentia das áreas altamente urbanizadas; trabalhadores contrariados, que já compreenderam que a sua emancipação não está no aumento de trabalho ou na reivindicação de um pleno emprego estúpido, destrutivo e envelhecedor, mas na superação de uma sociedade que lhes impõe a escravidão assalariada produtora de objectos muitos deles inúteis; movimentos de mulheres que já perceberam que o verdadeiro feminismo não é ter direito a voto, nem ter o direito de ser tão ou mais explorada que o homem no mercado de trabalho.

Ficam de fora os grupos, inclusive de trabalhadores, que estejam muito integrados no mundo tecno-industrial e enquadrados por organizações sindicais e/ou partidos políticos. Estes grupos, aparentemente de «oposição» ao sistema ou mesmo «revolucionários», continuam a entender os problemas em função da situação económica e social do início do século XX, sem compreenderem os novos problemas. Até ao dia em que tiverem uma nova tomada de consciência, estes grupos estão de tal maneira enquadrados no sistema, são de tal maneira manipulados pelas elites político-sindicais, que ainda não conseguiram perceber que as suas reivindicações e lutas parciais fazem parte do próprio sistema e é utilizado por este na sua estratégia de exploração. Em Portugal, por exemplo, perante a promulgação pelo actual governo “socialista”(*) de um novo pacote de medidas ditadas “pelos mercados” e que só irá aumentar o empobrecimento generalizado e a taxa de lucro do capital, respondeu a central sindical mais importante – Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses-Intersindical, mera correia de transmissão do Partido Comunista – com uma greve geral de 1 dia para que, nas palavras do seu secretário-geral, “seja dada alguma coisa aos trabalhadores e eles não venham para a rua, porque a rua não negoceia”.

As lutas que já se desenvolvem, por motivos vários, nas ruas da Grécia, de Itália, de Inglaterra, de Espanha ou de França são sinónimo de que, apesar destes grupos ainda serem fortemente minoritários, começaram a pôr em prática formas de luta sem compromissos, de acção directa, não-hierárquicas, ou seja, formas de luta libertárias, e que, como tal, escapam ao controlo de partidos, de sindicatos, da ordem estabelecida, e já arrastam com eles sectores menos activistas da população.

Apelidando estas lutas e os seus protagonistas de “terroristas”, metendo-as no mesmo saco do radicalismo islâmico ou meramente político, o Estado intensificou, como nunca antes o fizera, todo um processo securitário de controlo dos cidadãos. A desculpa do terrorismo tem servido ao Estado para criminalizar lutas e movimentos radicais, ou simplesmente de mera contestação a opções político-económicas lesivas dos interesses das populações, como o comboio de alta velocidade, por exemplo. Para isto, tem contado com a ajuda da presença omnipresente de alguns meios de comunicação, como a televisão, e de alguns jornalistas que são meros transmissores de fontes policiais ou dos interesses do capital. No entanto, como sabemos, nunca houve pior terrorismo que o terrorismo de Estado. Desde que existe, que o Estado tem ao seu serviço todo um aparelho político-repressor constituído por polícias, exércitos, tribunais, prisões, campos de concentração, hospitais psiquiátricos, etc.

Com este cenário de fundo, verifica-se que, de todas as “ideologias” alternativas, apenas o Anarquismo continua a opor-se ao Estado e ao capitalismo, tornando-se no único conjunto de ideias que não parou no tempo e que manteve as suas respostas coerentemente alternativas e actuais.

Umas linhas finais para sublinhar que utilizei sempre a palavra Anarquismo para facilitar a escrita, porque a palavra correcta seria Anarquismos. Na minha opinião, não há apenas um anarquismo, mas uma pluralidade de expressões deste anarquismo do qual ninguém é proprietário. Passa também pela nossa capacidade de aceitar estas diferenças e por esta pluralidade de expressões, o conseguirmos ser uma alternativa consistente e actuante à triste realidade que nos rodeia e esmaga. Não pode haver um anarquismo, mas vários anarquismos. Estes devem ser a expressão e a vontade genuína da sensibilidade e da liberdade de cada indivíduo e de cada grupo.

(*) Quando o texto foi escrito Portugal ainda era governado pela esquerda. Se é que faz alguma diferença.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Desprezo pelos Políticos

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Carlos Baqueiro

Esta semana uma empresa de pesquisa baiana publicou uma enquete que demonstra o quanto as pessoas gostam ou desgostam de determinadas instituições sociais, que influem de alguma forma em suas vidas.

Não sou daqueles que acreditam muito em tais pesquisas. Muitas delas são feitas a partir de encomendas de empresas, ou órgãos do governo. E ainda acredito que boa parte delas cria procedimentos que, de antemão, já se imagina que farão aparecer certos resultados.

O que gostei nesta pesquisa foi o resultado a que se chegou quanto às instituições governamentais e políticas. Obviamente o resultado me satisfez porque traduz o que os anarquistas falam há pelo menos 150 anos.

Vejam a seguir um dos gráficos expostos na pesquisa. Em vermelho estão as opiniões contrárias à cada instituição.


Não é difícil saber o porquê de uma pesquisa ter este resultado. O julgamento de Jaqueline Roriz nesta semana que passa, sendo ela “inocentada” pelos seus colegas, demonstra a que nível os políticos se esforçam para serem bem vistos pela população.

E quanto ao desprezo pelos governos é só relembrar as palavras de P.J.Proudhon, ainda no Século 19:

"Ser governado significa ser observado, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, cercado, doutrinado, admoestado, controlado, avaliado, censurado, comandado; e por criaturas que para isso não tem o direito, nem a sabedoria, nem a virtude... Ser governado significa que todo movimento, operação ou transação que realizamos é anotada, registrada, catalogado em censos, taxada, selada, avaliada monetariamente, patenteada, licenciada, autorizada, recomendada ou desaconselhada, frustrada, reformada, endireitada, corrigida. Submeter-se ao governo significa consentir em ser tributado, treinado, redimido, explorado, monopolizado, extorquido, pressionado, mistificado, roubado; tudo isso em nome da utilidade pública e do bem comum. Então, ao primeiro sinal de resistência, à primeira palavra de protesto, somos reprimidos, multados, desprezados, humilhados, perseguidos, empurrados, espancados, garroteados, aprisionados, fuzilados, metralhados, julgados, sentenciados, deportados, sacrificados, vendidos, traídos e, para completar, ridicularizados, escarnecidos, ultrajados e desonrados. Isso é o governo, essa é a sua justiça e sua moralidade! ... Oh personalidade humana! Como pudeste te curvar à tamanha sujeição durante sessenta séculos?"

Fonte: http://www.futuranet.ws/xpesquisas.asp?tb=semanal&id=194

domingo, 17 de julho de 2011

Revolução Espanhola: Eles Passaram...

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Carlos Baqueiro
(cbaqueiro@terra.com.br)

Há 75 anos atrás, no mês de julho de 1936, o povo espanhol saía para as ruas, contra um Golpe de Estado executado pelos militares, liderados pelo General Francisco Franco, que era apoiado pela Igreja Católica, parte da burguesia e latifundiários.

O povo, literalmente, sai as ruas de Barcelona, de Valença, de Madrid, liderados principalmente por marxistas, trotskistas e anarquistas. Mas também saiu as ruas nas pequenas aldeias, e vilas. Montavam barricadas e, armados, chegaram a tomar as prefeituras, os quartéis e órgãos públicos, e também as igrejas.

Enquanto as Forças Armadas tomavam a Galícia, e outras as regiões ao norte, e também a Andaluzia, ao sul, aqueles que lutavam contra o Golpe, tentando manter viva a democracia conseguida a muito custo com a queda da Monarquia alguns anos antes, mantinham a Catalunha e a a região de Castela, dentre outras menores.

A "Nova República" tentava sobreviver com apoio de trabalhadores urbanos e camponeses, de parte da burguesia espanhola, e de toda a esquerda. Mas em pouco tempo as alianças que permitiram a resistência contra Franco foram se dissipando. A falta de apoio de países como França e Inglaterra (que talvez tivessem mais medo de uma vitória da esquerda do que dos fascistas, mesmo com a Alemanha e a Itália  apoiando os golpistas sem qualquer ressalva), foi um fator preponderante.

Durante o processo o qual alguns chamam de Guerra Civil e outros de Revolução (dependendo dos desejos ideológicos), a União Soviética, sob o governo de Stalin, resolve enviar armas para a esquerda. Mas direciona as mesmas para o Partido Comunista. O PC inicia assim uma tentativa de tomar a hegemonia da “Revolução”, a partir do poder que conseguiu com as armas mais modernas mandadas por Stalin.

Os fatos começam a tomar rumos absurdamente complexos. Inicia-se uma guerra dentro da guerra. As esquerdas que não recebem armas (anarquistas e trotskistas) se revoltam contra o PC. Ve-se tiroteios entre anarquistas e comunistas nas ruas de Barcelona, pelo poder do edifício dos Correios. Trotskistas são presos em Madrid e levados para Edifícios Prisões criados por aqueles apoiados por Stalin.

A burguesia e a aristocracia espanholas, que se escondiam dentro das cidades ainda republicanas, aparentando uma humilde aceitação da atual condição, com suas roupas velhas e encardidas, como diria George Orwell, em suas lembranças no texto Homenagem a Catalunha, também contra-atacariam tomando as cidades que haviam resistido aos ataques franquistas.

Nas Vilas do interior, as Igrejas, que haviam sido tomadas pela população local, e se transformaram em hospitais e escolas, eram retomadas pelos padres e freiras fascistas, que eliminavam facilmente as milícias de esquerda, enfraquecidas com as confusões ideológicas e lutas reais que ocorriam entre os grupos que as formavam.

A “Revolução” foi derrotada. O povo teve de voltar aos seus velhos afazeres comuns: escravização e alienação. Inclusive indo as Praças logo após a queda do governo eleito democraticamente, para saudar Franco e seus apoiadores, servindo de massa de manobra.

A derrota foi tão humilhante, e a repressão tão feroz após a vitória dos golpistas, que o Generalíssimo Franco ocupou o poder supremo na Espanha até a sua morte, em 1975.

A crise de incompreensão sobre a derrota, os medos pelos conflitos ideológicos entre filhos e pais, entre irmãos e primos, foi tão grande que o historiador Pierre Broué, em Seminário sobre a Guerra Civil Espanhola, ocorrido em Salvador, na década de 90, ainda afirmava haver um receio de pesquisadores espanhóis estudarem sobre os fatos e acontecimentos ocorridos entre 1936 e 1939.

Há poucas semanas atrás estudantes e trabalhadores espanhóis também sairam as ruas e tomaram as praças, pretendendo defender os ganhos que haviam conquistado nessas últimas décadas sem o autoritarismo franquista. Os jornais que li relembravam, fazendo analogias, ao Maio de 1968 francês.

Naquele momento, não vi qualquer referência ao Julho de 1936. Infelizmente.

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Como opção para aqueles que desejam saber um pouco mais sobre a Revolução Espanhola faço duas sugestões:


e

O filme Terra e Liberdade, de Ken Loach.
(não achei nem venda de DVD, nem qualquer local para Download na Internet, portanto dê uma andadazinha até a locadora mais próxima em nome da lembrança de uma história e tanto)