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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O Sistema

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Ao contrário do que se afirma, os norte-americanos não são apáticos, mas constrangidos e moldados dentro das estruturas e das instituições e, por isso mesmo, estão convencidos, e não sem justificação, da impossibilidade de mudar, de modo significativo, o curso da sua própria existência.

A possibilidade de que dispunham nos últimos decênios, foi quase completamente usurpada pelas grandes sociedades multinacionais e pelos mastodônticos aparelhos burocráticos governativos, por uma tecnologia ao serviço do controle político, por uma economia e um Estado fortemente centralizados.

Até mesmo na esfera privada o cidadão norte-americano se sentiu dominado pelos grandes shoppings centers, pelas onipotentes máquinas das mídias de massa e por uma indústria energética monopolista que, em conjunto, decidem toda a sua vida (tipo de comida, moda, estilo de habitação, etc.).

Neste vasto complexo institucional - o "Sistema", como lhe chamamos - o cidadão tende a alijar os problemas que lhe dizem respeito diretamente e a refugiar-se na sua própria vida privada e familiar, nos seus amigos mais íntimos e nos prazeres cotidianos, isto é, no único mundo onde consegue ainda suplantar-se e compreender-se um pouco, se bem que apenas em parte.

Este refúgio, num mundo à sua própria dimensão humana, poderá ser interpretado como apatia, mas, na realidade, trata-se apenas de uma impotência social causada pelo "sistema" que, deliberadamente, impede as pessoas de se assumirem e assumirem o controle da sua própria existência e do seu destino social.

Murray Bookchin (1921-2006)
Textos Dispersos, Edição Socius
Lisboa, 1998

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Maior atentado terrorista ?

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Carlos Baqueiro
cbaqueiro@terra.com.br

Olha só a chamada na capa da revista Época datada de 5 de setembro de 2011. 
DEZ ANOS DEPOIS: A reconstrução da vida em Nova York, o abalo no poder americano e as marcas deixadas em todo mundo pelo maior atentado terrorista da história. (o grifo é meu). 
Vamos lá. 

Vou tentar aqui ser racionalista suficiente para agradar a aqueles que consideram o racionalismo algo importante, mesmo sabendo que já se foi a época em que as pessoas acreditavam naqueles que usavam essa forma de pensar. 

Além disso longe de achar que a revista Época faz mais publicidade que jornalismo, espero deixar claro o que quero através de um pouco da lógica histórica descartiana. 

Deixa eu ver como é definido TERRORISMO em algum dicionário. Segue um dos conceitos que achei no site http://www.dicionarioinformal.com.br/: 
Modo de coagir, ameaçar ou influenciar outras pessoas, ou de impor-lhes a vontade pelo uso sistemático do terror. 
No atentado das torres novaiorquinas morreram 2.977 seres humanos que trabalhavam ou visitavam aquele lugar. Outro dia assistindo a um filme chamado Lembranças, a partir de uma só vida perdida ali, deu prá perceber o grande estrago que fez na mente dos americanos. Mas daí a chamar o evento de MAIOR ATENTADO TERRORISTA DA HISTÓRIA é mera publicidade. E, indo mais longe, mera e reles ideologia.

Quanta gente morreu nos ataques dos helicópteros americanos no Vietnã ? Ah, mas dirão: Ali foi uma Guerra. Aff. Quando é um Estado super bem armado contra o outro não é terrorismo. É Guerra !!! 

Quando os americanos de uma só tacada lançam bombas nucleares sobre o Japão em 1945 e morrem Centenas de Milhares de infelizes é apenas guerra. 

Prá jogar gasolina no fogo vou logo lembrando também das ações de Catequização e Evangelização dos “indígenas” do hemisfério sul, assassinados pelo bem de suas almas. Quando a Santa Madre Igreja não conseguia seu intento, e os nativos resistiam muito, estes últimos eram até mesmo lançados na fogueira. Uma verdadeira “Inquisição” pouco divulgada. Pouquíssimo divulgada. 

Tocava-se fogo às centenas, em fogueiras com 13 índios, cada uma delas. Para, obviamente, celebrar os 12 apóstolos e o filho do deus cristão. Mas isso é Evangelização. Não é terrorismo não. 

Sem falar na velha e conhecida Inquisição européia. Imagine a quantidade de gente morta pelas simples e estúpidas deliberações de outros seres humanos que se reuniam, em nome do deus cristão, para libertar o mundo do mal. 

Segue um dos artigos do Forum Conche, em 1189, segundo o livro A Europa na Idade Média, de Georges Duby: 
As alcoviteiras. Toda mulher de quem se venha a saber que é alcoviteira será queimada viva: se se tratar apenas de um boato, e se ela negar, será absolvida pela prova de fogo. 
Portanto, colegas jornalistas, não me venham novamente aplacar seus desejos subliminares reafirmando ter acontecido no 11 de Setembro de 2001 o MAIOR ATENTADO TERRORISTA DA HISTÓRIA. 

Não vamos cair no conto da carochinha de que a Nação é sempre vítima dos seus inimigos externos e internos, e o Estado e as Igrejas serão sempre seus defensores. Não vivemos mais nos tempos em que o jornalismo era monopólio de quem tinha dinheiro ou poder. 

Vivemos no tempo dos blogs e quem quiser agora pode escolher: Pode-se acreditar nos filhos do senhor Roberto Marinho, ou nos caras que tomaram a TV Estatal em Brasília, ou em mim... ou mesmo em ninguém, se nada agradar, e correr prá um site gratuito criando seu próprio blog e mandar todo mundo prá casa do caralho.

sábado, 13 de agosto de 2011

O Colosso do Norte Martirizado

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Carlos Baqueiro
cbaqueiro@terra.com.br

Será que ainda tem algum brasileiro que fica com pena dos EUA quando vê a imagem do presidente Barack Obama martirizado com a dor de flechas que sangram seu corpo, como se encontra na capa da Revista Veja dessa semana que passou ?

Quando vi aquela capa hoje em um mercado aqui perto de casa, lembrei imediatamente de um livro chamado "501, A Conquista Continua" de Noam Chomsky. 

A leitura do livro nos leva a acreditar que a elite americana não perderá a chance de manter seu status quo. E fará o que for necessário para isto. Seja pela manipulação cultural, ou simplesmente pela força das armas. Vejamos o que nos expõe Chomsky.

“Quando levados em consideração os recursos daquele vasto país, fica evidente que dentro de poucos anos o Brasil se tornará uma das maiores potências do mundo", escreveram os editores do Washington Post em 1929, de acordo com o livro citado. Seguindo a mesma fórmula da "Boa Vizinhança", o Brasil em 1926 foi chamado de "Colosso do Sul" pelo New York Herald Tribune, em contrapartida ao já conhecido então "Colosso do Norte", ou seja, os Estados Unidos.

Naquele livro, publicado em 1993, Chomsky, um intelectual não muito agradável aos olhos da elite americana, nos faz começar a compreender um pouco mais as características da tão terrível Doutrina Monroe: "A América para os Americanos". Compreendemos melhor, quando, por exemplo, Chomsky nos revela as palavras de um ex-presidente americano, Sr. Taft, prevendo "que não está longe o dia em que todo o hemisfério será nosso de fato, como, em virtude da nossa superioridade racial, já o é em termos morais".

"No início de 1962 os comandantes brasileiros informaram ao embaixador de Kennedy, Lincoln Gordon, que estavam organizando um golpe. Com a iniciativa pessoal de Kennedy, os EUA começaram a emprestar apoio secreto e aberto aos candidatos da direita nas eleições". Seja anteriormente ao golpe de 64 ou depois, os EUA sempre estiveram por detrás dos fatos mais dantescos acontecidos no Brasil. A sua política de "Boa Vizinhança" era, na realidade, uma política de utilização da América Latina como mercado para as exportações americanas, beneficiando as suas grandes empresas privadas. Mesmo quando, em um ato de "amizade", os EUA financiaram um projeto siderúrgico brasileiro (provavelmente ao tocar neste assunto Chomsky se referia a CSN, no governo de Getúlio), estava por detrás das boas intenções apenas exportar tecnologia simples, além do que "os países que devido a esta fábrica vão perder a maior parte dos negócios com o Brasil são a Inglaterra e a Alemanha".

A ação americana não se deu e nem se dá apenas no Brasil, é óbvio. Sua doutrina de aproximação e de "comércio livre mercantilista" investe em toda a América Latina e no mundo. "O petróleo da Venezuela sob a ditadura de Gómez, as minas da Bolívia, do Chile e dos demais países e as riquezas de Cuba, eram alguns dos alvos preferidos". No livro, Chomsky vai mais além e se refere também a massacres nas Filipinas, Oriente Médio, para não esquecermos o mais conhecido, no Vietnã.

Porém, o caso do Haiti talvez seja o mais estúpido (se é que podemos comparar estupidez). Em 1808 os haitianos conseguiram expulsar os franceses e começaram a viver num regime independente. De acordo com o antropólogo Ira Lowenthal, "o Haiti foi a segunda república mais velha do Novo Mundo, mais do que até mesmo a primeira república negra do mundo moderno. O Haiti foi a primeira nação livre de homens livres que surgiu dentro da constelação emergente do império europeu ocidental - e como resistência a ela". A invasão do Haiti em 1915, pelos EUA, seria conseqüência da visão de "Maçã Podre", a qual poderia criar condições de "apodrecer" os vizinhos, e de acordo com Chomsky, foi mais selvagem e destrutiva do que a invasão da República Dominicana.

"Os soldados de Wilson (presidente dos EUA em 1915) mataram, destruíram, virtualmente reinstituíram a escravidão e demoliram o sistema constitucional... O major Smedley Butler lembrou que os seus soldados caçavam os cacos (como eram chamados os rebeldes que resistiram a invasão) como se fossem porcos". Por isto, F.D. Roosevelt mandou que o agraciassem com a Medalha do Congresso.

Nos anos 90 invadiu Granada e Panamá. E com a aceitação por parte da ONU e OTAN, invadiu o Iraque, duas vezes, e a Somália, tomando o posto de "dono do mundo" após a queda do Império Totalitário Soviético. Mas a história não acaba aí. A elite que governa os EUA tem agora um negro como chefe condutor na Casa Branca, e continua tentando submeter o mundo em seu redor.

Mais próximos a nós, no Brasil, podemos imaginar o quanto aquela elite deve investir para nos transformar em meros mantenedores de matéria prima. Deve querer maior liberdade para explorar os já oprimidos trabalhadores, deve ter adorado o fim dos monopólios estatais do petróleo e das telecomunicações. E, agora com a nova crise, deve estar sedenta para continuar sugando as riquezas do subsolo (como fizeram com o Manganês do Amapá), se possível de graça. Tudo isso com o auxílio da elite tupiniquim, agora, mais do que nunca, fortalecida, com a social-democracia do PT e PSDB subordinada a ela (ou se tornando também elite).

Por fim, novamente aproveitando as informações de Chomsky, temos de compreender que também o trabalhador americano é explorado. E da década de 80 para cá, a elite no poder se volta com mais força para dentro de seu próprio país, para poder incrementar a opressão. "Um relatório do Congresso divulgou estimativas de que a fome cresceu 50% desde meados da década de 80, atingindo algo em torno de 30 milhões de pessoas. Outros estudos mostram que uma em cada doze crianças menores de 12 anos sofre de fome...".