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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Um pouco mais de Cuba...

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Rapaz. E não é que a turma da polícia política do Politburo voltou ?

A Turma do PCdoB (que nos anos 1980/1990 me censurava quando eu brincava que a Albânia era a Disneylandia deles, com a diferença de que eles nunca iam lá visitar) deu uma ré, saindo das intrigas palacianas de Brasília e do Castelo de Wagner e foi pegar no pé da blogueira cubana Yoane Sanches.

Em homenagem a aqueles que endeusavam o Ditador Enver Hoxha deixo ai embaixo uma amostra de uma das postagens da cubana. Como pirraça mesmo. Além do que ela escreve bem legal, e de quebra ainda se encontra uma diversidade de links de outros blogs cubanos.

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Em Cuba não há droga?
Eu tinha uma ceratite bem agressiva no olho esquerdo. Era o resultado da pouca higiene do albergue e das sucessivas conjuntivites mal cuidadas. Receitaram-me um tratamento complexo, porém depois de um mês de colírios continuava sem notar melhora alguma. Ardiam-me os olhos ao contemplar as paredes pintadas de branco e as zonas onde se projetasse a luz do sol. As linhas dos livretos apareciam borradas e examinar minhas próprias unhas era impossível. Yanet, a menina que dormia na cama em frente me contou o que acontecia. “Roubam-te a homatropina para tomarem-na, curtem uma tremenda viagem e depois preenchem o frasco com outra coisa”, disse-me num sussurro em frente às duchas. Desse modo me pus a vigiar cada noite minha posição e comprovei que era verdade. O medicamento que devia me curar era consumido por alguns colegas de albergue misturado com um pouco de água… Não era a toa que a minha córnea não sarava.
Elefantes azuis, caminhos de matéria plástica, braços que se alongavam ao horizonte. Escapar, voar, pular de uma janela sem sofrer dano… Até ao mesmíssimo abismo eram as sensações perseguidas por muitas daquelas adolescentes afastadas de seus pais e que viviam sob os poucos valores éticos transmitidos pelos professores. Algumas noites os rapazes faziam, na área desportiva, uma infusão da flor conhecida como “campana” conhecida como a droga do pobre. No final do meu décimo grau começaram a também entrar naquele pré-universitário os pós para inalar e “erva” em pacotes pequenos. Eram trazidas principalmente pelos estudantes que viviam no paupérrimo bairro de El Romerillo. Risadinhas nas aulas matinais depois da ingestão, olhadas extraviadas que transpassavam o quadro-negro e a libido exacerbada com todos aqueles “estímulos para viver”. Com doses regulares já não se sente nem o ardor da fome no estômago, confirmavam-me algumas amigas já “fisgadas”. Por sorte nunca me deixei tentar.
Ao terminar a bolsa de estudos soube que fora dos muros daquele lugar a mesma situação se repetia, porém em maior escala. Na minha região de San Leopoldo aprendi a reconhecer as pálpebras semi-abertas dos “colocados”, a fraqueza e a pele mortiça do consumidor empedernido e a atitude agressiva de alguns que depois de darem “um toque” acreditavam-se os reis do mundo. Quando os anos dois mil chegaram aumentaram as ofertas no mercado da evasão: melca, marijuana, coca - esta última a uns 50 pesos conversíveis o gramo atualmente – pastilhas EPO, Parkisonil rosado e verde, pedra, Popper e todo tipo de psicotrópicos. Os compradores são de variados estratos sociais, porém em sua maioria buscam escapar, passar um momento, saírem da rotina e deixarem para trás a asfixia cotidiana. Inalam, bebem, fumam e depois são vistos a bailar por toda a noite na discoteca. Passada a euforia ficam dormindo frente a esta mesma tela de televisão onde Raúl Castro assegura que “em Cuba não há droga”.
Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto
 Quem quiser dar uma olhadinha mais profunda no blog de Yoane e de outros cubanos entra no link http://www.desdecuba.com/generaciony_pt/.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Nas Ondas do Big Brother

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Carlos Baqueiro
cbaqueiro@terra.com.br

Parece que o Big Brother está mesmo na moda. Na Terça-Feira de Paredão o mestre de cerimônia, Pedro Bial, transformou o programa global popularíssimo em sucursal da Academia Brasileira de Letras. Citou Macunaíma, de Mario de Andrade, e o Malandro Carioca de Chico Buarque, relacionando-os a dois participantes mal vistos pelos assistidores do BBB12. Televisão, por mais que não aparente, e que não se queira acreditar, também é cultura.

O BBB é o reality show brasileiro mais famoso. Daqueles que colocam gente dentro de um local fechado, dezenas de câmeras e microfones, e haja vigilância, junto com uma determinada mistura de exibicionismo e voyeurismo. Ironias e cinismos a parte dou minhas risadas assistindo as baixarias e artimanhas dos participantes.

Apenas me entristeço porque nem todo mundo sabe de onde vem o termo Big Brother.

Bem que Bial poderia qualquer dia desses aproveitar a bela audiência que tem o programa e falar de George Orwell. É dele a idéia de um Big Brother (Grande Irmão) que se encontra 24 horas por dia de olho em cada um dos habitantes da Inglaterra (no livro 1984, denominada Oceania, junto com os Estados Unidos).

Encontrei na Internet as revistas Filosofia e Aventuras na História abordando justamente a obra de Orwell.

No artigo (capa da primeira revista) “Como Eles nos Controlam ?”, o Mestre em Filosofia Renato Bittencourt faz uma análise das obras de Orwell (1984) e de Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo). A partir das teorias de Michel Foucault acerca da Sociedade Disciplinar ele percebe como em ambos os livros os autores conseguem sintetizar a idéia de que “a aspiração utópica pela estabilidade social corre o risco de se tornar uma distopia”.

Bittencourt também percebe como, por exemplo, duas sociedades com propostas diferenciadas com relação ao sexo têm no final das contas os mesmos objetivos com relação ao controle sobre os indivíduos. O sexo em 1984 é censurado, inibido, castrado:
O projeto do Partido era eliminar todo prazer no ato sexual. A pulsão sexual era perigosa para o Partido, que a utilizava em interesse próprio. Tal dispositivo é um grande mecanismo para a ampliação do grau de tensão psíquica da massa, que, impedida de gozar e satisfazer os seus desejos, reprime os seus instintos e se aliena das suas capacidades transformadoras, tornando-se infeliz e submissa diante da autoridade de uma ideologia política vazia, que usa palavras de ordem e da manipulação de informações para concretizar o seu poder totalitário..
Enquanto isso, na sociedade criada por Huxley as práticas sexuais são incentivadas pelo Estado. A liberalidade sexual neste caso ao invés de representar uma situação positiva para os indivíduos se torna mesmo uma armadilha. Junto com uma droga (também liberada pelo Estado) chamada Soma, a “liberdade” sexual torna-se uma ferramenta de alienação e controle da população.

Já na revista Aventuras na História de Abril de 2010 (encontre o download rolando por sites na rede, ou compre a Revista no site da Editora Abril) encontramos também uma outra análise do livro de Orwell no artigo "O Grande Irmão está te Vigiando", escrito por Álvaro Opperman.

Neste artigo o autor faz um pequeno resumo da história do livro 1984, além de uma biografia reduzida de Orwell.

Ao final do artigo o autor faz uma ligação entre os BIG-BROTHERS de Orwell e o de John de Mol (criador da idéia do famoso reality show). A relação entre autoritarismo e voyeurismo é debatida. John de Mol tenta explicar que “na obra de Orwell é o governo que observa tudo através das câmeras – ele fala de autoritarismo e não de voyeurismo, como é o nosso caso”. Contradizendo esta opinião, Opperman cita o historiador Johann Huizinga para quem “uma das chaves para o sucesso dos regimes autoritários é estimular a bisbilhotice alheia”.

Isso nos faz lembrar das nossas conhecidíssimas ditaduras: Cuba e China, apenas como exemplo, quando até hoje uns deduram os outros, e as prisões ainda ocorrem sem qualquer direito de defesa. Cuba até bem pouco tempo possuía um dos maiores e mais “brilhantes” esquemas de deduragem, os CDR (Centro de Defesa da Revolução) onde desde crianças os indivíduos eram treinados a identificar indícios de contestação ao regime, onde quer que fosse, nas suas escolas, e mesmo dentro de suas próprias casas. Vem a mente uma sequência de 1984, quando o próprio filho dedura o pai, ambos vizinhos do desesperado Winston Smith.

Da mesma forma que Cuba levava seus “subversivos” aos paredões, nesses tempos de reality shows somos nós mesmos que temos o poder de levar aqueles que não nos agradam aos paredões midiáticos, conseguindo premiar tanto Macunaímas, quanto Alices.